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Revista Comunicar 26: Comunicación para la salud (Vol. 13 - 2006)

Telepsicodrama e educação escolar: uma conversa entre professores

Telepsychodrama and school education: a teachers´talk

https://doi.org/10.3916/C26-2006-18

Heloísa Dupas-Penteado

Abstract

El telepsicodrama es un producto cultural nuevo, basado em las investigaciones que surgen de las ideas de Moreno, aplicadas a los actuales recursos de las tecnologías audiovisuales del vídeo y la televisión. El presente artículo se centra en investigar las principales propiedades pedagógicas del telepsicodrama en situaciones escolares cotidianas de enseñanza. En este contexto didáctico, este recurso se nos presenta en la vivencia colectiva de los procesos de espontaneidad, las posibilidades de superación de las dificuldades experimentadas y apuntadas por los jóvenes, etc.

The telepsychodrama is a new cultural product. It comes from research that links Moreno´s ideas to the current TV and VCR technological resources. The paper results from this research. It investigates pedagogic properties of telepsychodrama in school teaching situations. This teaching resource presents, in the collective life of spontaneous preocesses, possibilities of overcoming difficulties experimented and outlined by the youth.

Keywords

Telepsicodrama, lenguaje imaginable, polisemia, socialización, lenguaje televisual

Telepsychodrama, imaginable language, socialization, televisual language

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No Congresso Iberoamericano de Comunicación y Educación, ocorrido na Universidad de Huelva, em outubro de 2003 procedemos à apresentação de um novo produto cultural, o telepsicodrama. Sua produção resulta de um trabalho de pesquisa, na qual, articulando as idéias de Moreno com os atuais recursos das tecnologias de vídeo e televisuais, o relacionamos com o Conhecimento e com a Educação, na modalidade escolarizada e na modalidade de socialização. Neste artigo nos deteremos nas relações específicas entre telepsicodrama e educação escolar, que vimos construindo na 2ª parte da pesquisa, buscando averiguar e explorar, junto a professores e alunos, as suas propriedades pedagógicas em situações escolares.

O telepsicodrama aqui focalizado intitula-se «Resgatando a vida no telepsicodrama da AIDS». Sua produção ocorreu dentro de um projeto de trabalho com o tema sexualidade, constante dos temas transversais preconizados pelos parâmetros curriculares Nacionais (PCN’s). O trabalho com tal tema era visto com dificuldades por professores do ensino médio da Escola de Aplicação da USP, que atestavam sua presença em solicitações de seus alunos e a conseqüente necessidade de ser trabalhado na escola.

Nos encontros que tivemos com alunos desses professores, para apresentação e desenvolvimento do projeto de pesquisa, várias seções psicodramáticas foram realizadas. Em cada uma delas, diferentes temas relacionados a diferentes papéis sexuais afloraram como necessidades a serem telepsicodramatizadas. Das numerosas horas de gravação realizadas resultaram os telepsicodramas «Namoro e liberdade», «Relações familiares e alcoolismo», «Resgatando a Vida no telepsicodrama da AIDS».

Devido aos altos custos da edição de um telepsicodrama e do muito grande investimento em horas de trabalho de edição, concentramos esse trabalho no telepsicodrama da AIDS, que atualmente é o que se encontra mais bem finalizado para exibição.

Com ele iniciamos os trabalhos de pesquisa sobre seu potencial pedagógico, enquanto recurso didático, junto a professores e alunos, em situação escolar.

Duas perguntas, então, se colocaram como fundamentais para os professores que buscam ter clareza do significado de suas decisões e escolhas didático/pedagógicas: por que trabalhar com telepsicodrama na escola?; por que trabalhar com o telepsicodrama intitulado «Resgatando a vida no telepsicodrama da AIDS?».

Razões de várias ordens justificam o trabalho com o telepsicodrama na escola. Uma delas diz respeito ao fato de a produção do telepsicodrama decorrer de um projeto de pesquisa que: a) prioriza questões indicadas por jovens, componentes de preocupações deles sobre questões muito presentes na sociedade atual, e cujas respostas disponíveis ainda não satisfazem suas angústias/ conflitos/necessidades atuais; b) é realizado com a participação de jovens, e é registrado em linguagem televisual com suporte em vídeo.

O vídeo é um registro específico da linguagem imagética. Esta aparentemente decodificável em seus significados pela analogia imediata que proporciona com a realidade a que se refere, e sedutora pelo envolvimento que causa por sua estética, é uma das linguagens mais presentes na sociedade tecnológica, sendo a TV o canal de divulgação por excelência, responsável por sua disseminação, praticamente universal. Ao contrário do que se supõe, para decodificar a linguagem imagética não basta «ter olhos para ver».

Sabemos que na linguagem escrita não basta a identificação dos signos, do alfabeto e das regras que regem a sua combinação em palavras e destas em frases para a captação dos significados que se esgueiram pelas malhas e entrelinhas de um texto, para a leitura compreensiva e crítica do mesmo. Assim também a leitura compreensiva e crítica do texto imagético exige muito mais do que a mera possibilidade de identificação ou reconhecimento do aspecto do mundo visual que a imagem representa.

A respeito do texto escrito, saber, por exemplo, quem é que diz o que está escrito no texto, quando diz a quem se dirige e com que finalidade, muda fundamentalmente a compreensão do sentido do texto, podendo ampliá-lo ou restringi-lo, a partir da interlocução, do diálogo que o leitor pode então manter com ele, a partir dessas informações e de suas experiências e/ou convicções pessoais, a respeito do tema nele contido. As informações anteriormente referidas permitem contextualizar o texto, ou seja, localizá-lo, situá-lo na realidade de que procede, em seu tempo, espaço, autoria, destinatário.

Além da contextualização, saber distinguir ou reconhecer os recursos de ênfase da linguagem escrita, que fortalecem determinados argumentos em detrimento de outros, permite ao leitor não ficar à mercê dos significados propostos pelo texto, mas estabelecer com ele trocas significativas.

A respeito do texto imagético, o mesmo exercício de contextualização para a boa decodificação do texto escrito se faz também necessário, para a absorção mais pertinente de seus significados possíveis. Para além disto, poder reconhecer os efeitos da posição da câmera na gravação da imagem, de uma imagem em primeiro plano, de um zoom, de ênfase decorrente da iluminação, do som em off, da linguagem oral na indução de determinados sentidos em detrimento de outros, é fundamental para a ocorrência de trocas significativas do leitor com o texto imagético.

Ao se proceder à leitura na escola do telepsicodrama, que é um vídeo com qualidade para exibição em circuitos de TV, se estará promovendo na escola um exercício de aprendizagem da leitura dos textos televisuais, praticamente onipresentes na vida cotidiana de todos nós. Ainda que os professores possam não ter sido preparados em sua formação profissional especificamente para a leitura do texto televisual e/ou vídeo-gráfico, uma característica peculiar deste tipo de texto propicia o desenvolvimento dessa aprendizagem em serviço, em conjunto com seus alunos.

Trata-se do fato de ser um texto que admite leitura em situação coletiva, todos reunidos em um mesmo espaço e expostos a um só exemplar do texto na sala de aula, o que viabiliza a constatação imediata da polissemia, ou seja, dos diferentes significados que um mesmo texto tem para diferentes leitores, se forem realizadas trocas das leituras efetuadas ou das compreensões alcançadas, imediatamente após sua exibição.

A polissemia ocorre porque a significação de qualquer texto é feita a partir de diferentes referenciais dos leitores, que são as suas peculiares experiências de vida. Então, esse simples exercício de troca de compreensões já quebra a hegemonia ou a suposta inquestionalidade do texto imagético, que a imagem lhe confere, atribuindo-lhe estatuto de verdade.

O exercício de trocas de leituras e compreensões tem a propriedade de colocar o seu significado em discussão.

Para além disto, estar informado sobre alguns recursos técnicos utilizados na construção do texto imagético desperta o leitor/receptor para buscar o seu significado para além das aparências. Ter conhecimento, por exemplo, de que a gravação da imagem de uma pessoa com câmera inclinada de baixo para cima, ou de cima para baixo resultam em expressões totalmente diversas (pessoa arrogante no 1º caso ou o oposto no 2); que o «zoom», trazendo a imagem da pessoa ou objeto focalizado para ocupar toda a tela, tem um maior efeito de persuasão, uma vez que a imagem fica direta e exclusivamente, dirigida ao receptor, provê o leitor de instrumentos importantes para a decodificação de significados, permitindo- lhe indagar: «é a personagem focalizada realmente antipática e arrogante ou isto é mero efeito da mídia? Ou ainda questionar-se sobre qual é a importância da simpatia ou arrogância de tal personagem, para a situação em que está sendo focalizada pelo texto. Ou, além disso, permitindo-lhe pôr-se em dúvida sobre a conclusão a que chegou a partir da leitura perguntando-se: penso realmente assim, sobre tal fato ou personagem, ou estou sob os efeitos persuasivos manipulados pela mídia?».

Ao promover este «distanciamento» do texto vídeo- gráfico ou televisual propiciador da vivência de uma leitura crítico-construtiva do significado da mensagem da mídia imagética, estaremos desenvolvendo na escola competências e habilidades fundamentais para o desempenho da relação autônoma do receptor com as mensagens socializadoras da sociedade midiática. Estaremos capacitando nossos alunos e a nós mesmos, pela educação escolar, para uma relação consciente com os processos de socialização (educação informal). Estaremos entrecruzando educação escolar e socialização. Ou seja, estaremos colocando o conhecimento escolar a serviço da qualificação da vida humana, ousando caminhos que levem à superação da fragmentação ou divórcio entre escola e vida.

Uma outra razão para se trabalhar com o telepsicodrama na escola diz respeito ao fato de ele ser um produto cultural que se destina à exibição em canais de TV, com a pretensão, desejo, sonho de contribuir com a qualificação da programação de TV para jovens.

É preciso indagar aqui em que consiste a diferença deste produto cultural novo intitulado telepsicodrama, que lhe confere a pretensão de contribuir com o processo de socialização via TV. A diferença consiste no fato de que, ao produzi-lo uma nova linguagem midiática está sendo construída. Trata-se da linguagem telepsicodramática, que surge da mixagem ou fusão de linguagens pré-existentes, como a videográfica, dramática e televisual.

O diretor psicodramático, que como já vimos, é um profissional com formação específica, atua em equipe com outros profissionais, como videomakers, câmera man, educadores. E obtém, como resultado desse trabalho um texto telepsicodramático que é um vídeo com qualidade para exibição em canais de TV. Neste, duas diferenças básicas em relação à linguagem televisual se destacam.

Uma delas refere-se à natureza da atuação dramática das personagens. Enquanto na linguagem televisual os atores representam papéis que obedecem a roteiros pré-estabelecidos e não de sua autoria, no telepsicodrama os atores desempenham papéis que vão sendo criados por eles próprios, no «aqui e agora» de sua atuação. O que os torna simultaneamente autores dos papéis que representam. Onde buscam a matéria- prima para a criação desses papéis? Em suas experiências sociais que vão sendo vividas na experiência telepsicodramática de maneira peculiar, de acordo com o resgate da compreensão objetiva/subjetiva das situações que representam.

Como esse resgate ocorre? Pela mediação do diretor telepsicodramático que se serve para tanto de alguns recursos básicos, como a linguagem oral, corporal e simbólica para promover a liberação da espontaneidade dos atores/autores, linguagens estas também presentes nos programas televisuais. Entretanto, nestes programas tais recursos são utilizados de maneira conducista e até subliminar de modo a concentrar a atenção do receptor apenas em um determinado significado o que é muito evidente nos comerciais. Quando se trata, por exemplo, de propaganda de carros ou de utensílios eletrodomésticos ou de cosméticos, sua apresentação é acompanhada de um discurso falado do apresentador que enaltece as propriedades que devem torná-los plenamente desejáveis, a despeito do preço apresentado para o produto, ou da real necessidade dele para o telespectador.

Já quando se trata, por exemplo, de um texto de telenovela, a linguagem simbólica construída por meio de recurso técnico de tomadas de cena, jogos de luz e som, compondo ambientes de tipo agradável, bonito, sedutor ou repugnante, conforme a reação de acolhimento ou repulsa, desejada, seja para um comportamento apresentado ou para os inúmeros objetos de merchandise, é o recurso acionado para «conduzir» a apreensão da mensagem pelo telespectador.

A manipulação no uso das linguagens oral, corporal, simbólica fica evidente também em propaganda televisual de produtos que são alvos de algum controle legal, como por exemplo, remédios. A expressão corporal é de modo geral utilizada para enaltecer o mal estar que conduz ao uso do medicamento e o bem estar daí resultante. Todavia para a advertência, em atendimento à exigência legal, de que o uso do remédio auto-administrado pode ter resultados perversos, ou mesmo não ter resultados, a televisão serve-se da linguagem escrita apresentada em um fundo de tela neutro: «Ao persistirem os sintomas um médico deverá ser consultado».

Problematizemos essa situação. Por que não usar a linguagem escrita para a apresentação do remédio e a linguagem corporal para a advertência? E nos depararmos então com o poder sedutor da imagem que, se utilizada na apresentação da advertência poderia levar o receptor a concluir: já que o remédio pode não dar o resultado esperado e/ou até acrescentar outros inconvenientes, então é melhor mesmo já partir inicialmente para consultar um médico. E a televisão deixaria assim de vender o produto e o comportamento consumista. Pois que, acima de tudo ela é vendedora de atitudes e comportamentos.

Uma atitude menos alerta, diante do texto televisual pode levar à seguinte indagação: - «Como a TV é vendedora de atitudes e comportamentos se não estou pagando nada por eles, mas apenas pelos produtos que eu decidir comprar?». O telespectador paga realmente pelos produtos. Quem paga pela venda do comportamento ou da atitude consumista é o produtor e/ou o comerciante do produto, que ao financiar o anúncio, ou a merchandise inserida em outros programas, está comprando o comportamento do telespectador.

Diferente deste uso da linguagem imagética, corporal, oral, simbólica ou escrita o telepsicodrama se apresenta como uma nova alternativa de programa televisual. Comprometido com o trabalho com questões emergentes da sociedade atual, cuja maior compreensão e conhecimento se faz urgente para a qualificação da vida de seu público alvo, exige para sua produção a atuação de profissionais com formação cientifica a respeito do comportamento humano, psicodramatistas e educadores, além de profissionais de vídeo e de TV. O recurso à imagem corporal e ao drama tem por meta «dar visibilidade» a sentimentos, pensamentos, estados subjetivos, ou seja, tornar «visível » fenômenos do «mundo invisível», por meio da criação espontânea.

Como já consideramos anteriormente a imagem que representa o «mundo visível» é polissêmica. O mundo subjetivo representado corporalmente e dramaticamente no psicodrama é uma imagem nova, não existente no mundo visível até então. Quando é corporificada, é carregada de um significado simbólico contido nas posições, nos gestos, nas expressões peculiares àquela dramatização, que seu criador vai revelando com o auxílio do psicodramatista.

Essa revelação é obtida por intermédio do uso da palavra oral, pela interlocução do diretor telepsicodramático com o protagonista criador da imagem. A linguagem oral é utilizada como ferramenta no trabalho de esclarecer idéias e sentimentos que se expressam nas imagens corporais e na dinâmica da ação dramática. Isto porque a imagem ou ícone é um signo que, por si só, só pode ser identificado pelo receptor quando ela representa algo que já é do conhecimento deste receptor. De nada valeria exibir a imagem de um cachorro para povos em cuja fauna esse animal não existisse, com a pretensão de que o identificassem, sem qualquer explicação, no momento mesmo dessa comunicação. Neste sentido a imagem corporal e a linguagem corporal são recursos conservadores, uma vez que desacompanhados de outra linguagem só podem comunicar o que já é conhecido do receptor.

Já a palavra, oral ou escrita, pode revelar situações, fenômenos, objetos e seres desconhecidos do receptor, por encaminhar um discurso lógico que permite ao receptor ir construindo em sua mente o fenômeno descrito. Mas, embora não exija o conhecimento prévio do fenômeno a que se refere, também não garante o seu conhecimento, tal como é.

Tem-se então que o signo verbal, oral ou escrito, é um signo com potencial revelador, no sentido de que pode permitir construções mentais por parte do receptor que o aproximem do conhecimento do «novo», do «desconhecido».

O uso da linguagem oral na linguagem televisual vem ocorrendo no sentido de explorar o potencial conservador da imagem, encaminhando o receptor para um dos seus sentidos.

Já o uso que é feito da linguagem oral na linguagem telepsicodramática ocorre no sentido de explorar o potencial revelador da imagem na busca do sentido peculiar atribuído pelo criador à sua imagem, não só na perspectiva do criador, mas na dos diferentes participantes do grupo telepsicodramático.

Um programa televisual se fecha em torno de uma dada versão extraída da imagem, ou até mesmo de uma contradição decorrente do emprego que faz das linguagens utilizadas, como é possível perceber, por exemplo, em propagandas (imagens acompanhadas de falas que estimulam ou excitam o uso da bebida, exibidas simultaneamente com texto escrito contendo a mensagem «Aprecie com moderação»; ou imagens acompanhadas de falas que estimulam a automedicação seguidas por advertências escritas, do tipo «ao persistirem os sintomas um medico deverá ser consultado »).

Em um psicodrama o emprego de diferentes linguagens –falada, escrita, simbólica, corporal, sonora– não tem por meta fechar-se em uma conclusão única a ser apresentada ao telespectador. Em vez disso, o uso da palavra ao longo do telepsicodrama, pelo diretor telepsicodramático, e ao final do mesmo, elucida o telespectador a respeito das diferentes possibilidades de sentido que o telepsicodrama exibido pode ter, ou até não ter, para cada receptor, e como lidar com ele de maneira que possa vir a ser pessoalmente significativo. Por todas essas diferenças entre a linguagem televisual e a telepsicodramática, ao trabalhar com telepsicodrama na escola estaremos:

• Exercitando nossos alunos na leitura de textos televisuais compromissados com os efeitos comportamentais do público a que se destina; ou seja, estaremos familiarizando nossos alunos com textos televisuais voltados para a qualificação da vida humana e proporcionando, assim, a oportunidade de leitura de um texto televisual que visa provocar o pensamento do receptor sobre o tema, o que poderá resultar em demanda de programas de qualidade, como desdobramento.

• Dando, ao assim procedermos, alguns passos em direção à superação do divorcio entre «escola e vida», existente no modelo tradicional de ensino já suficientemente denunciado;

• Nos servindo da tecnologia midiática para colocar conhecimentos científicos sobre o comportamento humano a serviço do público alvo a que se destina, não de maneira normativa, como era compreendido o uso da ciência na modernidade, mas de maneira a podermos explorar e democratizar as possibilidades de conhecimentos dela decorrentes, para a qualificação da vida humana;

• Além de tudo, estaremos difundindo a existência do método psicodramático numa sociedade ainda resistente a democratização das possibilidades de seu uso e de seu aprendizado, que oferece em cursos de alto custo, e não o incluindo nos currículos de formação dos profissionais da área do comportamento humano, dentre os quais nos encontramos, nós professores.

Resta agora nos determos sobre o tema a que se refere o Telepsicodrama da AIDS, aqui focalizado, e à importância de seu uso escolar.

Daí decorre a pergunta: «Porque trabalhar com esse tema junto a nossos alunos, se eles não forem aidéticos? ».

O primeiro ponto a considerar é a presença alarmante de infectados por esta doença na nossa sociedade atual. Estatísticas demonstram que discernir os riscos reais dos imaginários sobre a doença, e sobre os modos de contaminação, saber lidar com os portadores da doença e com a própria doença, caso venhamos a ser vitimas dela, previne comportamentos preconceituosos, que somente agregam mais dificuldades no comportamento das pessoas envolvidas em situações em que haja a presença de aidéticos.

Ao profissional professor, nosso informante já sensibilizado para a importância do interesse do aluno no trabalho com um determinado tema, ocorre a pergunta: «Por que estariam nossos alunos supostamente não aidéticos, interessados no tema?». Duas respostas possíveis precisam ser aqui consideradas.

A primeira delas seria que é possível que estejam interessados, por conta de os processos de socialização ou de educação assistemática, que ocorrem desde a conversa entre os amigos até as campanhas de esclarecimento encaminhadas por diferentes mídias, estarem alertando a população e os jovens a respeito dessa doença. Como os processos midiáticos de comunicação, de modo geral são unidirecionais (do emissor para o receptor da mensagem) sem admitir uma interlocução mais ampla, ficam dúvidas a serem esclarecidas, sobre o perigo nas práticas da vivência sexual, cujos comportamentos, apesar de tão alardeados e mesmo incitados pelas mídias, especialmente pela TV (haja visto as cenas de novela) são cercados por tabus sociais e muitas vezes familiares, que dificultam o encaminhamento de perguntas sobre condutas corretas na vivência da intimidade, e que não inibam a sensibilidade e espontaneidade dos parceiros sexuais. É sobre este binômio, condutas adequadas/sensibilidade dos parceiros, que incidem as dúvidas mais delicadas de jovens iniciantes na vida sexual. É preciso termos em mente que a juventude é a época da vida em que ocorre a descoberta do amor, da vivência do primeiro amor, do qual ninguém jamais esquece, e hoje ameaçada por um vírus tão feroz. Essas são possíveis boas razões para alunos não aidéticos estarem interessados no tema. Mas, também é possível pensar em grupos de alunos saudáveis, cheios de vida, bem situados, a tal ponto de poderem desfrutar dos muitos confortos, bons tratos e recursos que a cultura das sociedades tecnológicas disponibiliza, de modo a não se preocuparem com os problemas sociais, que lhes parecem distantes, problemas dos outros, pelos quais, pensam, nunca serão acometidos.

O fato de esses alunos não estarem preocupados ou voltados para esta questão, não os torna menos expostos que os demais aos riscos da doença.

Como os demais, são jovens ingressantes na vida amorosa e vivem, como todos, a inexperiência dos novos comportamentos, com os riscos e as benesses a eles relacionados.

A AIDS é uma realidade presente na sociedade em que vivemos. Assim a presença do tema no ensino escolar se justifica pela necessidade de o conhecimento escolar estar a serviço da resolução de questões postas pela vida, numa perspectiva de escola progressista, significativa.

É, pois dentro deste quadro real e complexo com que nos deparamos, que a questão do «interesse do aluno» tem que ser compreendida por nós professores.

A pré-existência do interesse pelo tema no aluno é uma condição facilitadora importante para o trabalho do professor. Todavia não é indispensável, quando as condições da realidade social atestam a necessidade de munir os jovens de recursos de conhecimentos, capazes de orientar comportamentos mais lúcidos diante dos problemas vitais que se apresentam.

Na situação de inexistência do interesse prévio do aluno, cabe a nós, professores, despertá-lo.

É tarefa fácil? Não. Não é uma tarefa fácil. Porém é uma tarefa do professor que assume o compromisso de ligar o saber escolar às questões de vida. Do professor identificado com os ideais de uma educação escolar significativa.

A questão que se coloca a esse professor é como fazer isso. Na pedagogia da comunicação, que entende a educação escolar como um processo comunicacional específico, o professor encontra recursos orientadores do procedimento necessário.

Ao colocar em discussão junto aos alunos o problema, indagando, ouvindo e acolhendo as opiniões e considerações feitas, por mais divergentes que se apresentem, e expondo a sua visão do problema e a importância de sua focalização na escola, estará dando o primeiro passo dentro de uma metodologia comunicacional1 do ensino.

Desafiar os alunos sobre a importância do trabalho com o tema será o segundo passo. Ao se posicionar sobre essa importância dificilmente conseguirá convencer a todos. O importante é levar em consideração as opiniões divergentes sem desconsiderar a sua opinião de educador, cuja formação, experiência de vida e compromisso profissional não foram superados pelos argumentos dos alunos desinteressados do tema. Enfrentar essa situação com uma proposta didática acolhedora, e ao mesmo tempo provocadora, do tipo:

• «como não estou convencida de que o tema não é importante, da mesma forma que um grupo de vocês não está convencido da importância dele na educação escolar, e como deixar de trabalhar com ele, seria para eu fugir ‘a minha responsabilidade profissional, proponho uma aposta».

• Vamos trabalhar com ele com duas apostas diferentes, cujo resultado verificaremos ao final dos trabalhos, retomando a questão inicial da importância ou não do tema.

• Muita coisa poderá ocorrer então: poderemos permanecer em nossa opinião inicial e poderemos até tê-la reforçada; poderá ocorrer que alguns dos incrédulos a princípio venham aderir à causa da importância; como também poderá ocorrer o inverso.

Ao assim proceder, estaremos lidando com a realidade dos comportamentos possíveis, numa aula aberta aos diferentes aproveitamentos e aprendizagens dela decorrentes.

O mais importante nessa metodologia comunicacional de ensino não é um resultado imediato pretendido e pré-fixado pelo professor, mas é a oportunidade criada na escola da vivência de um processo em que os alunos lidarão com conhecimentos diversos sobre o tema, dentre eles os cientificamente produzidos, de maneira a poder vir a reelaborar significados anteriores seus, e criar comportamentos novos, mais condizentes com a qualificação da vida.

É preciso, pois que os procedimentos e recursos didáticos escolhidos pelo professor sejam atraentes e diversificados, de modo a se conseguir provocar, de diferentes maneiras, os diferentes alunos.

De modo geral o texto imagético é bem acolhido pelos jovens imersos no mundo midiático e, quando incluído na escola pode abrir portas para outros tipos de texto que versem sobre aspectos relacionados ao tema focalizado pelo texto imagético. É quando o texto escrito pode ganhar outro significado, nesta conduta didática comunicacional, para esclarecer pontos que, levantados pelo texto imagético ou a partir dele, nele não encontrem maiores e melhores esclarecimentos.

No texto «Resgatando a vida no psicodrama da AIDS» conceitos como vida, morte, saúde, doença, amizade são outras possibilidades de exploração didática que se apresentam além do tema princial e que farão sentido ao longo do processo, na dependência das diferentes leituras que os diferentes alunos fizerem, devido à já aludida polissemia dos textos.

Mas aqui é preciso estar alerta para o fato de que estamos «educados» pela socialização televisual a nos comportarmos diante de textos imagéticos de maneira contemplativa e não indagadora.

Então será preciso que o professor encaminhe a nova conduta após levantar e acolher comentários dos alunos, em seguida à exposição do mesmo, e, orientado por esses comentários, problematize aspectos do texto imagético, apresentando perguntas como por exemplo: O que você pensa sobre a afirmação feita por Neto:

• «Agora o vírus é meu amigo e assim eu vou dominá-lo».

• «Um amigo é para ser dominado?».

• Ou ainda sobre o depoimento: «fui contaminada pela AIDS ao ser concebida por minha mãe».

• «Esta é a única maneira de se adquirir essa doença?».

• Ou mesmo sobre a afirmação: «Só aceite a morte quando ela for natural e inevitável».

• «O que é morte natural e inevitável?».

Ao fazer isto junto a seus alunos estará inaugurando uma conduta de reflexão frente aos textos imagéticos, que aproveitará de maneira crítico-construtiva a sedução de que estes textos são portadores, para a construção de conhecimentos novos, para ampliação dos pré-existentes, para a qualificação da vida de nossos jovens e da programação de TV para jovens.

Notas

1 Ver a respeito; Penteado, Heloísa D. (2002): Comunicação escolar: uma metodologia de ensino. São Paulo, Salesiana.

Referencias

Penteado, Heloísa D. (2002): Comunicação escolar: uma metodologia de ensino. São Paulo, Salesiana.