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Revista Comunicar 31: Educar la mirada. Aprender a ver TV (Vol. 16 - 2008)

Tiza, cámara, acción: la imagen en la formación de educadores

Chalk, camera, action: an experiment in reading and production of the image for teachers´ training

https://doi.org/10.3916/c31-2008-03-039

Sandra-Mara de-Oliveira-Souza

Abstract

El presente trabajo trata de un relato de investigación, cuyo foco fue una experiencia de lectura y producción de la imagen en la formación de educadores del sistema público de enseñanza de la ciudad de Parnamirim, en el Estado de Rio Grande do Norte, al nordeste de Brasil. La referida ciudad, marcada en su historia por la presencia de una base aérea norte-americana durante la II Guerra Mundial, fue el escenario para la producción de un documental en vídeo sobre la temática de la pluralidad cultural presente en los parámetros curriculares nacionales. Los sujetos de la investigación, educadores municipales, participaron de forma colectiva en todas las etapas, desde la concepción del guión y la elección del género del programa, hasta su lanzamiento en la comunidad y la divulgación en las escuelas municipales

The present work consists of a research report focused on an experiment with image production and reading aimed at the training of teachers of the state school system in the district of Parnamirin, which belongs to the state of Rio Grande do Norte, in the north-east of Brazil. This district, marked by the presence of a North American military air base during the Second World War, was the setting for the creation of a video documentary on Cultural Diversity, which is part of the Parâmetros Curriculares Nacionais. The subjects of the research, teachers of this district, took part in all the stages collectively, from the script and the selection of the format, to the release of the programme in the community and its following spread through the school network.

Keywords

Cultura, educación, vídeo, formación de educadores, educación de la mirada

Culture, education, video, teachers' formation, view education

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Educação e cultura são conceitos diretamente proporcionais. Ao associarmos esse binômio à leitura e produção da imagem temos, então, um campo de saber que possibilita um novo olhar dos indivíduos sobre si mesmos e sobre sua própria história. Uma reflexão mais profunda sobre as experiências midiáticas, sobretudo aquelas relacionadas à leitura da imagem em movimento, deverá ajudar-nos a escapar da impressão de passividade ou de «intoxicação» que ela muitas vezes sugere e permitir-nos, ao contrário, perceber novas possibilidadesde compreensão dos efeitos da cultura da imagem sobre nós. Exatamente por estarem extremamente difundidas na sociedade, as imagens nos são familiares e, apesar da infinidade de significações que elas nos trazem, temos a possibilidade de compreendê-las de alguma forma. Imaginária ou concreta, a imagem passa, necessariamente, por alguém que a produz e alguém que a reconhece. Aumont (1995) considera vários fatores que intervém na relação do sujeito com a imagem: além da capacidade perceptiva, entram em jogo o saber, os afetos, as crenças.

Importa ressaltar que a nossa experiência teve como ponto de partida a mudança, por parte dos sujeitos, da posição de espectadores para a de produtores de imagem. Esse foi o caminho encontrado para que, criando, recriando e participando ativamente da elaboração de um documentário em vídeo, os sujeitos da pesquisa pudessem estabelecer outro tipo de relação com a imagem televisiva e conduzir essa discussão com seus alunos, em sala de aula. Ao trabalharmos com o modelo televisivo, aqui representado pelo vídeo, nos deparamos com uma «linguagem» específica, que preferimos considerar elementos de expressão característicos desse meio. O elemento central quando se constrói algum programa de vídeo não é somente o conteúdo da imagem, mas, também, a forma como foi construído. A cada escolha de planos, angulação e movimentos de câmera corresponde uma visão específica do autor (idealizador da imagem). A interpretação dessa imagem, embora sujeita às condições histórico-sociais de cada indivíduo que a vê, trará sempre, como marca registrada, a visão de alguém.

1. História, imagens...

O presente trabalho é parte de uma pesquisa de mestrado realizada com educadores da rede pública de ensino, no município de Parnamirim, estado do Rio Grande do Norte, Brasil. Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial e a partir de um acordo entre os governos do Brasil e Estados Unidos, Parnamirim foi escolhido para sediar uma base aérea militar norte-americana. A presença dos militares atraiu pessoas de diversas localidades do Rio Grande do Norte e de estados vizinhos que vinham em busca de oportunidades de emprego e de ganhos em dólar. Durante cerca de cinco anos os americanos dominaram a cena potiguar. Smith Junior (1992) registra que, em determinada ocasião, pelo mau tempo, a base chegou a abrigar dez mil americanos. O saldo dessa permanência, além das crianças loiras de olho azul, foi um quadro representativo de diversidade cultural no estado e, principalmente, no município. A partir dessas observações e descobertas e da boa receptividade dos educadores ao trabalho proposto, optamos por desenvolver a pesquisa de campo do nosso projeto de mestrado com o referido grupo. O grande desafio a partir do momento dessa escolha foi, sem dúvida, captar recursos para pôr em prática o que, mais tarde, representaria um importante e único documento em vídeo realizado por professores do município. O vídeo documentário «Parnamirim for all: Educação, Memória e Pluralidade Cultural» foi mais que o subproduto de uma experiência ímpar na formação desses educadores. Foi um mergulho nas questões culturais do município, na experimentação de novas formas e, principalmente, um fator de reflexão acerca do papel do educador-cidadão na «sociedade da imagem».

Para isso, o construto do referencial partiu dos elementos-chave que compõem a pesquisa: a escola, a capacitação de educadores, os processos comunicativos e os elementos expressivos do vídeo.

2. A realidade brasileira...

A falta de uma cultura tecnológica gera um descompasso entre a sociedade e a tecnologia, refletindo-se das mais diversas formas, seja na efemeridade desta (que vai se «modernizando» cada vez mais depressa), seja na falência estrutural das instituições, que, mesmo dentro de padrões tecnológicos considerados de «primeiro mundo», não conseguem dar conta do provimento de serviços básicos, ou ainda na inacessibilidade desses instrumentos tecnológicos para grande parte da população. A grande maioria encontra-se separada ao mesmo tempo de suas instituições tradicionais e dos meios de acesso aos bens que a modernidade tem proposto.

Ao importarmos essa discussão para o campo educacional brasileiro, experimentamos questionamentos semelhantes. A introdução de tecnologias avançadas nos mais diversos setores da sociedade e, mais especificamente, na educação, vem revelar uma dualidade. Por um lado a sociedade brasileira não consegue resolver problemas básicos como saúde, educação e moradia. Por outro, convive com novos valores introduzidos pela presença de instrumentos tecnológicos.

O grande embate tem-se dado, principalmente, pela recusa do que não é considerado «moderno». Verifica-se a segmentação das experiências tanto na prática, no uso cotidiano, quanto nas pistas deixadas pelos estudos acadêmicos, que tornam-se modismos, rompendo assim, com uma seqüência que póderia ter grandes efeitos a médio ou longo prazo. O imediatismo das tecnologias parece ter se tornado o imediatismo do processo ensino-aprendizagem. Rádio, televisão, vídeo e computador são as novas tecnologias ausentes na escola pública brasileira. Ausentes não no sentido de inexistentes; ausentes na utilização, nas discussões e reflexões e, principalmente, na produção.

Assim sendo, faz-se imprescindível pensar no delineamento de ações que busquem a intimidade com estas tecnologias também dentro da escola, garantindo, com isso, a permanência desta enquanto lugar de destaque na formação de indivíduos para lidar com as novas formas de produção do conhecimento.

3. «Falando por imagens»

A compreensão dos elementos que representam a imagem em movimento configura-se num caminho para uma leitura mais completa do que vemos e ouvimos. Através dessa apropriação podemos nos tornar também atores, estabelecendo assim, um diálogo entre os vários grupos que compõem a sociedade e, no caso da educação, entre educador e educando. A leitura da imagem não é imediata, ela provém de todo um universo mediado pelo olhar produtor e receptor das imagens. No documentário, a narrativa assume importância extrema: mais do que um mecanismo para contar uma história, trata-se de um meio que convence em torno do não-imaginário, do que emana da vida real. E, muitas vezes, a estrutura narrativa é a organização básica do documentário. A ideologia está presente na narrativa oferecendo representações em forma de imagens, conceitos, mapas cognitivos, visões de mundo, como propostas de estruturas principais e pontuações de nossa experiência.

4. O projeto...

A pesquisa que embasa esse artigo teve como sujeitos educadores graduandos em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Vale ressaltar que, embora em formação acadêmica, todos já atuavam na educação do município. A pesquisadora, enquanto aluna do Mestrado em Educação dessa mesma universidade, teve a oportunidade de vivenciar uma experiência a partir da oferta de um curso de extensão que teve como tema o uso do vídeo na sala de aula. Com duração de vinte horas/aula, o programa do curso contemplou aspectos referentes às etapas de elaboração de um vídeo documentário e à leitura da imagem em movimento, utilizando-se para isso de aulas expositivas, exibição de vídeos e dinâmicas em grupo. A partir de um âmbito mais geral, procurou-se importar a discussão do instrumento vídeo e de sua técnica para o campo educacional, privilegiando a importância de se transferir os educadores da posição de espectadores comuns para a de espectadores críticos.

Em outro momento a pesquisadora foi convidada a ministrar uma disciplina integrante do currículo básico do curso de Pedagogia, intitulada Seminário II – As múltiplas linguagens em sala de aula. A carga horária de noventa horas foi dividida em três módulos: Patrimônio Cultural, Narrativas e Áudio e Vídeo. Os módulos foram trabalhados paralelamente e a avaliação final consistiu na elaboração de uma pesquisa sobre o município de Parnamirim, a fim de ser utilizada como material didático nas escolas. Os aspectos a serem privilegiados na pesquisa eram de livre escolha dos educadores, bem como a forma de apresentação (impresso, em vídeo ou em multimídia), e a metodologia. As etapas do trabalho deviam estar explícitas num projeto de pesquisa (exigência da equipe docente).

Como resultado, os oitenta e seis educadores, divididos em doze grupos, produziram uma grande quantidade de material de pesquisa. Apesar disso, nem todos chegaram a um produto final, dado o tempo exíguo de um semestre letivo e a outras dificuldades de ordem geral, tais como a escassez de bibliografia, já que o município dispunha, à época, de apenas uma biblioteca pública, com um acervo bastante limitado, e a grande quantidade de atividades realizadas paralelamente pelos sujeitos já que se dividiam entre as salas de aula das escolas municipais (como educadores) e a sala de aula da UFRN (como alunos). Apesar disso, todos participaram do processo e puderam avaliar as dificuldades e as descobertas inerentes a um trabalho de pesquisa.

As experiências anteriores, a curiosidade, o fascínio pelo ver a si mesmo e ao outro despontaram como estímulos para a participação na pesquisa. As inscrições foram abertas sem qualquer restrição ou pré-requisito e tiveram a duração de uma semana. No total, vinte educadores preencheram a ficha de inscrição, sendo que, somente dezessete freqüentaram assiduamente as reuniões. Foram três os desistentes e não chegaram sequer a freqüentar o primeiro encontro.

No total, realizamos seis reuniões para que pudéssemos sair em busca das imagens que planejamos captar pelas ruas, escolas, residências e instituições de Parnamirim. A princípio o trabalho teve dois momentos: as reuniões gerais e as reuniões por grupos. Os encontros aconteceram no período noturno e consideramos importante ressaltar que a universidade encontrava-se em recesso açadêmico. Ainda assim, a freqüência foi considerada boa durante as reuniões gerais e muito boa durante as reuniões por grupos. À medida que as reuniões avançavam, os objetivos do projeto foram emergindo concretamente. Os educadores expunham as principais dúvidas acerca do andamento: como seriam as gravações, se eles teriam que dar algum depoimento, se o projeto iria interferir no horário de trabalho de cada um. Ficou combinado que teríamos cronogramas semanais de atividades e que definiríamos o conteúdo das discussões coletivamente bem como a quantidade de reuniões necessárias para o amadurecimento do tema escolhido. Foi de comum acordo a decisão de que, após definido o roteiro, iríamos nos dividir em grupos, para facilitar o planejamento das locações bem como o acompanhamento das gravações e a posterior edição.

Apesar dos objetivos definidos quando do início do projeto, várias situações imprevistas surpreenderam a equipe. Da mesma forma que na produção de um vídeo, ainda que tendo o cuidado de elaborar roteiro e planejar gravações, somos surpreendidos por situações que alteram o rumo do que estava previamente elaborado, durante as reuniões e gravações do programa, vivenciamos a pluralidade de visões de mundo, de opiniões e de contextos familiares. Decorrentes dessa pluralidade, percebemos nos depoimentos dos educadores a revelação de dúvidas, de curiosidades, de angústias e de surpresas que até então eles não tinham tido a oportunidade de socializar e, conseqüentemente, de refletir a respeito.

À medida que sentávamos para discutir o tema e pensar os encaminhamentos, estabelecíamos um diálogo centrado no aspecto científico, porém, sempre permeado pelo aspecto humano, refletido nas experiências cotidianas do grupo. Como afirma Maturana (1999: 75) «sistemas sociais são sistemas de convivência constituídos sob a emoção do amor, que é a emoção que constitui o espaço de ações de aceitação do outro na convivência». O desafio principal que nos foi colocado consistiu na reconstrução do conhecimento existente, colocando-o a serviço da formação de uma consciência crítica. Em primeiro lugar na relação dos educadores com o conteúdo (eles puderam perceber a pluralidade cultural de uma forma mais próxima); Em segundo lugar, deles com o patrimônio cultural (já que buscaram suporte na bibliografia, em jornais, na memória viva); Em terceiro lugar, deles para com eles mesmos (ao resgatar na auto-imagem deles mesmos, de seu município - a reflexão de suas práticas, de sua gente, enfim, de toda uma maneira de viver).

Tão logo foram percebendo-se «atores» e tendo como cenário suas casas, suas escolas, sua cidade, a reflexão passou a ser feita a partir das próprias praticas.

Um fato figurou como importante no julgamento do grupo: se ainda há meios para se recuperar a história, por que não fazê-lo, já que são eles os difusores da cultura local e, além disso, por que não se utilizando de instrumentos que estão disponíveis nas próprias escolas e na vida diária.

Depreende-se que a cultura local pode e deve ser considerada um elemento de retomada da identidade do profissional de educação. Através dela e inserida num contexto de desenvolvimento da imaginação, criatividade e reflexão (suscitados pela utilização do vídeo), será possível transformar a escola em espaço de satisfação, de autoconhecimento e de experiências realmente novas. O novo, neste caso, não precisa ser considerado necessariamente o mais moderno, mas, primordialmente, o mais adequado.

Assim sendo, a busca por suportes que possam intermediar essa relação do educador com o mundo da cultura, encontra na imagem um elemento de reconhecimento e a educação encontra o seu verdadeiro propósito que é o de proporcionar aos educandos a aprendizagem, garantindo, com isso, a participação através de uma formação mais crítica.

5. Educadores - produtores...

Inicialmente pensado para estar restrito a um grupo de educadores de Parnamirim, a pesquisa foi ganhando amplitude no seu desenvolvimento, envolvendo não apenas os sujeitos, mas também a comunidade.

À medida que se sentavam para discutir as «diferentes visões» sobre um mêsmo contexto, puderam estabelecer um diálogo, na perspectiva de uma fundamentação científica e ao mesmo tempo uma compreensão do comtexto ao qual estão inseridos, visando uma prática pedagógica e social coerente.

Através da fala dos envolvidos, constatamos que a experiência constitui-se num projeto educativo, não tanto pelo conteúdo do vídeo ou pelas discussões em torno da temática Pluralidade Cultural, mas, sobretudo, pelo caráter transformador e dialógico que a experiência de ser produtores obteve à medida que os participantes discutiam, sugeriam, mobilizavam.

O grupo produtor incorporou, de fato, as propostas que o vídeo pretendia despertar. Foi o grupo, no papel de produtor, que teve a percepção de diagnosticar os locais de ocorrência dessa dita Pluralidade e identificavam o papel deles enquanto professores na concretização de projetos envolvendo quêstões culturais no município de Parnamirim. Ao observarmos os depoimentos no vídeo, percebemos alterações no «estilo cognitivo» do grupo, ou seja: o significado atribuído ao cotidiano, ao vivenciado foi mudando conforme o decorrer da pesquisa.

O cotidiano, no entanto, constitui-se numa dimensão estruturante da realidade e se é nele que se localizam focos de resistência, criatividade e mudança, é também o de alienação e reprodução. Isso ficou claramente explícito quando da escolha de um documentário no formato «clássico» popularizado pela televisão e quando, em algumas circunstâncias, procuravam, por assim dizer, «esconder» o que não julgavam conveniente «aparecer» no vídeo, já que se tratava de um documento que perpetuaria o grupo enquanto autores e atores.

O vídeo foi o grande mediador, responsável não só pela empolgação do grupo, como também pelo fascínio em torno do tema cultura. A exibição do vídeo mobilizou artistas, ma vez que na trilha constava música de um compositor local, antigos moradores, que se dispuseram a ser entrevistados, movimentos sociais, o grupo esteve presente numa reunião da Associação de Apoio ao Adolescente, a Igreja Católica, que cedeu o Centro Pastoral para a exibição, e a universidade, representada pela equipe responsável e convidados.

O grupo mobilizou também autoridades locais, as quais se fizeram presentes durante o evento, que, além da exibição do vídeo, oferecia mais dois eventos paralelos: uma exposição fotográfica e o lançamento de um catálogo sobre uma das mais tradicionais escolas do município.

Outra questão que também saltou a partir da pesquisa foi que a participação na produção de modo crítico forneceu elementos para mudanças mais acentuadas na forma de se encarar a Pluralidade Cultural, já que o processo de busca, pesquisa, pressupõe descobertas e um novo olhar sobre o tema. Ao deparar-se com situações do cotidiano tais referências foram buscadas de dentro para fora, partindo do nível micro para o macro. Talvez nem todas as situações tenham sido objeto da reflexividade de que nos fala Coulon (1995), mas certamente foi um instrumento de mudança, de inventividade e de buscas.

Seguindo as pistas de Freire (1967), o trabalho foi ao encontro de uma transformação social na perspectiva educativa, levando em conta, principalmente, conteúdos críticos. Não apenas em termos instrumentais (questões técnicas), mas, sobretudo, através da análise ideológica presente no discurso dos meios de comunicação e no contraponto oferecido pelo diálogo (que, segundo Freire, caracteriza a comunicação), quando também puderam ser os produtores de conhecimento. Desde a palavra geradora até os princípios da imagem nos seus suportes eletrônicos ou digitais, o que mais importa é poder compreendê-la, utilizá-la dentro de um contexto, procurando romper com as análises puramente conceituais e buscando uma concepção de mundo para reger a nossa prática.

No campo da Comunicação, procurou-se manter aceso o debate através da sua expressão mais notória: a problematização. No centro do debate, quêstões como cultura, política, informação, linguagem. Não cabe aqui qualquer explicação estanque da experiência. Isso fica bem claro a partir da constatação da circularidade do processo comunicacional, e um dos principais elementos para tal caracterização está na retroalimentação do processo. Tal resposta multiplicou-se nas ações: cada participante levou o vídeo para sua escola e o disponibilizou para o quadro docente. A prefeitura já tem no documentário coletivo um cartão de visitas da Educação em Parnamirim e em várias situações é exibido como exemplo de ações possíveis dentro do processo educacional.

Pensar, organizar e realizar um vídeo de cunho educativo através da fala e visão das pessoas é uma forma de se confrontar com o conteúdo transmitido pelos meios de comunicação de massa, normalmente revestido de uma bela embalagem, que reproduz um mundo de certa forma deslocado e com pouca identificação com a realidade vivenciada pela maioria dos professores da rede municipal de ensino.

A partir do momento em que a educação discute e procura métodos para a inserção das tecnologias no contexto educativo e a necessidade da implantação dos Temas Transversais (no caso brasileiro), o vídeo surge como uma importante ferramenta para proceder a esta interseção, seja pelo fascínio e facilidade de uso, seja pelas possibilidades de participação em sua elaboração e produção.

Dentro deste contexto a educação encontra seu verdadeiro propósito, que é o de proporcionar aos envolvidos num processo educativo técnicas de aprendizagem, auto-expressão e, acima de tudo a garantia de participação e emancipação. A experiência de refletir e produzir juntamente com um grupo de educadores de Parnamirim um instrumento educativo auto-referencial foi um passo tímido na tentativa de pensar e pesquisar sobre a influência dos meios de comunicação na forma de pensar e organizar a sociedade, além de revelar a importância do vídeo na formação de educadores. Mas, sem dúvida alguma, o vídeo serviu como uma janela para a percepção de que a «realidade» nos meios é sempre constituída pela visão de alguém.

A intenção inicial que era a de exercer uma capacidade imaginativa (da autora enquanto pesquisadora e dos educadores, enquanto pesquisados) em um processo de produção de conhecimento. Mais uma vez, prevalece a convicção de que a escola é o local mais adequado para que se proporcione um diálogo entre a contemporaneidade e o tradicional, entre a cultura científica e a popular, visando, essencialmente, a emancipação dos homens.

Referencias

Aumont, J. (1993): A imagem. Campinas, Papirus.

Coulon, A. (1995): Etnometodologia. Petrópolis, Vozes.

Freire, P. (1967): Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra.

Jameson, F. (2001): A cultura do dinheiro: ensaios sobre a globalização. Tradução de Maria Elisa Cevasco e Marcos César de Paula Soares. Petrópolis, Vozes.

Maturana, H. (1999): Ontologia da realidade. Belo Horizonte, Editora da UFMG.

Smith Junior, C. (1992): Trampolim para a vitória: os americanos em Natal–RN/Brasil durante a II Guerra Mundial. Natal: UFRN/Editora Universitária.